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NAZA: um documentário sobre a banalização da morte
Reprodução/Vitrine Filmes

NAZA: um documentário sobre a banalização da morte

Por Alan Diasem 27/10/2026

Existem filmes que nos fazem olhar para uma realidade difícil, e existem aqueles que nos obrigam a encarar o que muita gente prefere manter à distância. NAZA, documentário de Yuval Abraham e Rachel Szor, faz parte do segundo grupo. Com uma abordagem sombria e perturbadora, a produção investiga a lógica militar israelense durante a guerra em Gaza e expõe relatos de soldados e agentes de inteligência sobre como a morte de civis palestinos é tratada dentro da estrutura de operações militares.

Reprodução/Vitrine Filmes

O título faz referência a um código utilizado para estimar o número de possíveis vítimas civis aceitáveis em um ataque contra um integrante do Hamas. É a partir dessa lógica que o documentário constrói sua denúncia mais inquietante: quando vidas humanas passam a ser contabilizadas como parte de uma operação, a morte corre o risco de se transformar em apenas mais um número. Para dar voz a esses relatos, os diretores entrevistam ex-integrantes das forças israelenses em terraços de Tel Aviv, durante a noite. Com os rostos escondidos e as vozes modificadas para preservar o anonimato, eles falam sobre suas experiências em um cenário marcado pela violência e pela distância entre quem executa uma ordem e quem sofre suas consequências.

A escolha estética é um dos grandes acertos do filme. Durante boa parte dos seus 80 minutos, somos conduzidos por imagens escuras, silhuetas e depoimentos que parecem emergir de um lugar onde ninguém quer ser reconhecido. Enquanto os entrevistados falam sobre operações militares e mortes de civis, a cidade continua funcionando ao fundo, com suas luzes e janelas iluminadas. Esse contraste entre a normalidade de Tel Aviv e a devastação de Gaza torna tudo ainda mais desconfortável. A violência não precisa aparecer diretamente na tela para que sua presença seja sentida.

Reprodução/Vitrine Filmes

Outro aspecto importante está na maneira como os depoimentos revelam diferentes formas de lidar com a responsabilidade. Alguns entrevistados demonstram arrependimento, enquanto outros justificam suas ações pelo cumprimento de ordens ou tratam o próprio trabalho com uma frieza assustadora. O documentário não transforma essas falas em uma explicação definitiva, nem oferece respostas fáceis. Pelo contrário, deixa que o desconforto venha justamente da distância entre a gravidade do que está sendo relatado e a maneira impessoal como algumas dessas experiências são descritas.

Ao final, NAZA se mostra um documentário enxuto, preciso e difícil de esquecer. Mais do que expor os mecanismos de uma estrutura militar, o filme questiona o que acontece quando a responsabilidade individual se dilui dentro de um sistema e a vida de pessoas inocentes passa a ser tratada como uma variável operacional. É uma obra que exige atenção e disposição para encarar uma realidade dolorosa, mas que encontra na força dos depoimentos e na potência de suas imagens uma maneira contundente de denunciar a desumanização provocada pela guerra. O filme está em exibição nos cinemas.